Mudança na escola é sinal de manutenção

"Na escola, o que se quer, com a mudança, é aperfeiçoar as armas e as técnicas dos que acertam pouco", afirma Danilo Gandin

Fonte: Zero Hora (RS)

Todos falam em mudança. Inovação é palavra mágica. Até na Escola, onde nada importante muda há 200 anos, o discurso da transformação foi adotado. Valeria a pena, por exemplo, examinar os lindos textos do Conselho Nacional de Educação, do ministério, das secretarias e compará-los ao que, realmente, se permite fazer.

Há dois tipos básicos de mudança: aquele que busca mudar questões técnicas, de recursos, enfim o que é periférico e aquele que pensa em mudar o que importa realmente. Dou um exemplo: numa cidade, havia 15 matadores profissionais, desde uns que, a cada cem tiros, acertavam 80-90 vezes, até uns que não passavam de 30-40 acertos em cada cem tentativas.

Na Escola, o que se quer, com a mudança, é aperfeiçoar as armas e as técnicas dos que acertam pouco. Muito raras as pessoas que vão ao cerne da questão e se perguntam o que se ganha se Alunos saírem da Escola sabendo alguma coisa de logaritmos, o nome de alguns ossos do corpo, a fórmula do benzeno, algumas fórmulas da dinâmica dos fluidos… Se obrigássemos os Professores (doutores) da UFRGS a prestar vestibular para o curso no qual lecionam, eles não se classificariam; a maioria de nós, profissionais bem-sucedidos, não passaria num exame final de Ensino médio.

O pior é que a sociedade culpa os Alunos: “Eles não querem nada com nada”. Há os que se esforçam porque querem “passar no vestibular” – até ganham presentes por isto –, mas não parece inteligente esperar que alguém se interesse pelo nome das batalhas da Guerra do Paraguai, pela diferença entre a vogal e a semivogal, pelos rios da Europa, pela tabela periódica dos elementos… pelo menos, não tudo para todos.

Em minhas palestras e cursos, mostro isto com vee-mência: às vezes, convido os presentes a ficarem, no final, para assistir a minhas aulas de português – fui um razoável Professor e até sei latim –, mas ninguém fica; são coisas importantes e interessantíssimas, como distinguir adjunto adnominal de complemento nominal, mostrar as principais funções que a palavra “que” pode assumir numa frase, figuras de linguagem… Mas ninguém fica. Por que será?

Na verdade, a Escola reproduz a sociedade na qual se insere, de um modo muito mais profundo do que se pensa. Uma Escola de uma sociedade desigual produz e aprofunda a desigualdade. Quando as Escolas fazem “estudar” cinco disciplinas para o vestibular, não querem, de fato, difundir e aprofundar o conhecimento, mas separar os que têm dinheiro e podem cursar a universidade (e dirigir?) daqueles que não têm dinheiro e, por isto, devem trabalhar para os outros.

Apelar para a igualdade de direitos num caso destes é como pôr em luta de 10 rounds um velho Professor que nunca fez exercícios e o Mike Tyson nos seus 25 anos, dizendo que os dois têm direito igual de bater à vontade. Se as Escolas escolhessem eliminar as cinco matérias que valem (tanto valem, que caem no vestibular) e espalhar o conhecimento, a sociedade, representada pelas autoridades educacionais, não permitiria.

O máximo que é permitido é “inventar” coisas como os “conteúdos transversais”: seus autores mostram a importância que, supostamente, atribuem ao meio ambiente, à ética, à sexualidade, à saúde; muita gente acredita e todos temos certeza de que nada mudará por causa do conteúdo obrigatório das cinco disciplinas do vestibular.

A mudança curricular seria a saída: Alunos estudando, conforme a idade, temas como os peixes, o salário mínimo, o programa de mais médicos, a diminuição das árvores, a poluição dos oceanos, a água, os mamíferos, os hinos brasileiros, as religiões… Mas quem há de?

*Professor e escritor 

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